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Dizemos hoje que a escravatura já foi abolida, mas todos sabemos que ela ainda existe entre nós. Basta, apenas, referir o aprisionamento de mulheres nas teias da prostituição; as crianças, vítimas de exploração, quer sexual, quer de trabalhos muito pesados, principalmente nos países em vias de desenvolvimento.
Mas não é dessa escravatura óbvia que eu quero falar. É de um tipo de escravatura mais subtil, e que se disfarça em oportunidades de sucesso, de prazer, de gozo, de qualidade de vida. Nessa escravatura, o escravizador escraviza o escravizador de si mesmo. Ou seja, tenta pressionar psicologicamente o outro para que se convença do bem que lhe está a oferecer. Ora, o outro aceitando, a responsabilidade é-lhe transferida e torna-se, ao mesmo tempo, escravizador e escravizado. Este escravizará outros sem ter consciência do mal que está a fazer, e deste modo, provocará mais escravizadores.
De facto, este tipo de escravatura é como uma cobra que se dissimula e esconde, um mal difícil de identificar e de provar, que quer fazer-se passar por um bem para, quase sempre, obter lucros, ignorando a integridade e dignidade das pessoas.
Refiro-me, concretamente, ao markting agressivo praticado por tantas empresas, às ondas de moda que anestesiam completamente as pessoas, ao fanatismo político e religioso, etc. Há uma saturação de outdoors, de spots publicitários, de imagem em todos os cantos das nossas cidades. Bancos, seguradoras, empresas de automóveis, de cosméticos, hipermercados, clubes de futebol, marcas de prestígio, igrejas, parecem querer oferecer-nos a felicidade. É caso para perguntar: com tanta oferta e facilidade, por que andamos todos a olhar para baixo? Isto foi o que mais impressionou o Augusto nos três meses que está em Portugal. Olhar para baixo. Veio da província mais pobre de Moçambique, Niassa, e neste país embateu com a tristeza dos lisboetas dentro dos transportes públicos, nas ruas, nos centros comerciais... Porquê?
Não há dúvidas, por isso, que a liberdade e a felicidade não se conquistam com notas, na aquisição de bens materiais, mas descobrem-se quando se chega a uma capacidade interior de receber e dar amor. Só assim se quebra este ciclo esclavagista, elevando-nos para um outro patamar, de onde a perspectiva é bem mais ampla. Daí saberemos ver, ainda que, com alguma dificuldade, os escravizadores-escravizados, mesmo que apareçam camuflados a olhar-nos sorridentes, de gravata, e bem dispostos. E reconhecer-nos tantas vezes como tal nesta ou naquela situação da nossa vida.